O dia em que Tim Maia me deu uma lição de jornalismo

Se você quer fazer uma boa entrevista, tem que se expor a riscos.

O entrevistado pode te responder atravessado, pode ser grosseiro, pode te humilhar publicamente, mas você tem que, tal qual um bom boxeador, saber aguentar o golpe.

Em janeiro de 1998, eu estava começando a minha carreira profissional e tive uma das primeiras oportunidades no suplemento cultural da “Folha de São Paulo”, a “Ilustrada”.

“Ninguém é perfeito…”

A equipe toda da “Ilustrada” estava mobilizada por conta da primeira turnê do grupo U2 no Brasil, que seria tema de um caderno especial.

Havia um boato de que o U2 iria tocar uma música surpresa. Uns diziam que seria “Cidade Maravilhosa”, outros faziam as mais variadas especulações.

Decidiu-se dedicar uma pequena seção especial do caderno especial à tal história da música surpresa. E, para isso, a ideia virou falar com diversas celebridades e ouvir delas que canção elas gostariam de ouvir.

Cada artista disse uma coisa diferente.  Não lembro da resposta da maior parte, mas não me esqueço da conversa que tive com um deles…o cantor Tim Maia.

Poderia ter dado tudo errado, mas…

A coisa já começou com jeito de que ia acabar mal.

“Oi Tim, sou Bruno Garcez, da Ilustrada, da Folha de São Paulo.”

E ele: “Ninguém é perfeito, né, Bruno, poderia estar no ‘Herald Tribune’, no ‘New York Times’, mas tá aí na ‘Ilustrada’, da Folha de São Paulo, fazer o quê?”

Numa hora dessas, muitos ficariam indignados, iriam tremer, se desestabilizar. Eu não me contive e caí na gargalhada.

Foi assim que eu virei o jogo. Acabei ganhando o intempestivo e imprevisível Tim Maia. A conversa passou a fluir. Começamos a divagar bastante sobre diferentes temas.

Tim seguiu se queixando sobre o tema da entrevista. “Pô, Bruno, o tal do Bono está desrespeitando São Paulo.”

“Mas por quê, Tim?”

“O Bono trouxe um cozinheiro particular. Isso é um desrespeito, porque São Paulo é a capital mundial da gastronomia.”

Virando o jogo

Do U2, acabamos passando para vários outros temas. Tim se queixou do que julgava ser a atenção excessiva dada pela mídia nacional aos artistas estrangeiros e a suposta negligência com que a mesma imprensa brasileira passou a tratar grandes nomes como ele.

Ele se queixou também das gravadoras, como sempre, falou de projetos que estava desenvolvendo, de regravar clássicos da bossa nova e ao final, declarou:

“Taí, gostei de você. Passa seu endereço aqui pra  minha assistente que eu vou te mandar uns discos”.

E não é que, poucas semanas depois chegavam pelo correio dois CDs enviados por Tim, fazendo cair por terra a fama que ele tinha de caloteiro e de não cumprir com a sua palavra.

Poucos meses depois, em março,  Tim Maia morria no Rio de Janeiro. Aquela talvez tenha sido a última entrevista exclusiva dada por ele.

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