Saramago: o destruidor de muros

José Saramago morreu nesta sexta-feira, 16 de junho, aos 87 anos, acreditando nas crenças que defendeu ao longo de toda a vida. Era marxista, ateu e célebre não apenas pelos belos livros, como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “O Homem Duplicado”, mas pelas opiniões controversas, que ele expressava sem meias palavras.

No ano passado, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, escreveu em seu blog um texto com fortes críticas ao projeto de construir muros cercando as favelas da zona sul do Rio de Janeiro.

Você pode ler o blog completo no link acima, mas, no trecho em questão, ele afirma que:

“Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos um muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda a parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?”

Saramago tinha fama de sisudo, mal-humorado e de destratar jornalistas. Comigo, foi afável, gentil e extremamente antecioso.

Em 2004, a BBC britânica iria entrevistá-lo e precisava de uma tradução simultânea, já que Saramago não era fluente em inglês.

Após ter dado uma entrevista aos britânicos, ele respondeu a não menos que dez perguntas feitas por mim.

Ao final, agradeceu: “Muito obrigado, meu caro, pelo bom trabalho em circunstâncias difíceis”, referindo-se à tradução simultânea.

Na entrevista que fiz, perguntei, com ironia, se ele, um comunista convicto, acreditava que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva era como o protagonista de seu livro, “O Homem Duplicado”, que estava sendo lançado na Grã-Bretanha.

O romance fala de um homem que, certo dia encontra um duplo, alguém totalmente idêntico a ele, mas de caráter distinto.

Seria Lula, outrora um ídolo de toda as esquerdas, mas que agora recebia elogios do FMI e adotava políticas neoliberais, um “homem duplicado”.

Saramago não resistiu e riu, antes de responder: “Bem, não é exatamente um duplo, mas não é a mesma pessoa. O Lula que conhecíamos não tomaria uma série de medidas como as que tomou, mas a história é que o poder transforma as pessoas”.

Ele ainda acrescentou: “Aplaudi, apoiei, todos nós aplaudimos e festejamos a vitória (de Lula). Mas, neste momento, sou bastante crítico, sobretudo, com a política econômica, com esse acordo com o FMI que ele aceitou e que tinha uma condição fundamental que é o pagamento da dívida externa. Se isso se converte em prioridade, é claro que os problemas sociais vão ser postos em segundo plano”, disse Saramago.

Entre as questões que teriam passado para o segundo plano, Saramago citou “o plano Fome Zero, o problema da terra – que está sem resolver…”

O escritor português criticou igualmente o presidente Lula, o governo dos Estados Unidos e a sua ação militar no Iraque, a política israelense para os territórios palestinos e os abusos de direitos humanos em Cuba.

Uma das obras máximas de Saramago foi o livro “Ensaio sobre a Cegueira”, em que, sem mais nem porquê, um grupo de pessoas é tomado por um surto de cegueira.

Se formos analisar o romance minuciosamente, procurar ler nas entrelinhas, pode-se encontrar mensagens sociais ocultas, mas tudo muito sutil.  Apesar de ser um militante na vida “real”, a literatura de Saramago não tinha as mesmas características, não era panfletária.

Ele me explicou o porquê:

“A literatura é literatura, o que não significa que ela viva fora de tudo. Ela vive dentro de tudo. E exatamente por viver dentro de tudo, vive como literatura e dialoga com tudo a seu redor”.

“Para mim, a literatura não tem que ser um panfleto. Se entra por esse caminho, ninguém ganha. Não ganha a literatura, nem ganha a causa a que supostamente o panfleto quereria servir”.

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