Muito além da redação

O que muitos já definem como sendo um dos maiores furos das história do jornalismo mundial foi dado nesta semana não por um jornal, nem por um site noticioso ou por um portal de uma publicação jornalística.

O conteúdo de 91 mil documentos sigilosos pertencentes às forças militares dos Estados Unidos e relatando a ação do país no Afeganistão foi obtido em primeira mão pelo WikiLeaks, um site com sede na Suécia, mas com conteúdo relativo a diferentes países e governos de orientações distintas.

Uma organização que se define como “um projeto público multi-jurisdicional que visa proteger denunciantes, jornalistas e ativistas que pretendem comunicar temas  sensíveis ao público”.

Curiosamente, coube ao WikiLeaks, que nem mesmo é uma agência jornalística ou um site de notícias no sentido clássico, passar adiante o material obtido com exclusividade para publicações jornalísticas tradicionais, como o diário americano The New York Times, o jornal britânico The Guardian e a revista alemã Der Spiegel.

Criado pelo misterioso hacker e cyber ativista australiano Julian Assange, o WikiLeaks existe desde 2007 e já divulgou mais de 1 milhão de documentos secretos, mas ganhou notoriedade quando, no início deste ano, “vazou” outro conteúdo sigiloso de forte impacto.

As imagens e o áudio aqui destacados flagram um ataque realizado por um helicóptero americano em Bagdá, em 2007. A ação dos militares dos Estados Unidos matou 12 pessoas, entre elas um fotógrafo da agência de notícias Reuters e um motorista, e feriu duas crianças.

Jornalismo à antiga e métodos modernos

Com o “furo” desta semana, o WikiLeaks foi louvado pelo que alguns consideram ter sido uma vitória do jornalismo investigativo à moda antiga, mas a metodologia usada pela entidade segue preceitos modernos.

O projeto se vale do que é chamado no jargão de internet de “crowdsourcing”, que são formas colaborativas de criação de conteúdo, como o sistema operacional Linux, que foi montado por um exército de colaboradores em diferentes países.

Só que o crowdsourcing do WikiLeaks provém de pessoas com acesso a informações sigilosas e que o fazem de forma anônima, a fim de preservar sua própria segurança.

Muitos, no entanto, acreditam que a ação dos cyber ativistas está colocando a vida de militares americanos em risco e acusam-nos de irresponsabilidade.

Sem passaporte

O projeto não tem uma sede física, não conta com uma redação central e nem mesmo um país de origem. A escolha por um domínio sueco, país notoriamente não-alinhado em questões políticas, foi uma mera forma de fazer com que o projeto estivesse menos sujeito a retaliações por parte de governos internacionais.

Em seu perfil no microblog Twitter, no item “Local”, o WikiLeaks crava: “Todo Lugar”.

Para alguns, com o “vazamento” desta semana, o WikiLeaks obteve o equivalente aos Papéis do Pentágono, como ficaram conhecidos os documentos “vazados” por Daniel Ellsberg, um funcionário do Departamento de Estado que divulgou informações sigilosas sobre a Guerra do Vietnã, em 1971.

Só que nos anos 70, o caminho mais lógico para alguém que queria denunciar dados secretos era um grande jornal.

Agora, antes de chegar a um grande jornal, a informação bruta acaba nas mãos de uma entidade como o WikiLeaks, que em nada se assemelha a um jornal, a um portal ou a uma agência de notícias.

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2 respostas para Muito além da redação

  1. .mila. disse:

    Me apaixonei por essa matéria. Muitíssimo bem escrita, esclarecedora e investigativa. Eu eu aqui sem saber que existia sequer essa Organização chamada WikiLeaks. E agora sei e pesquisarei mais a respeito. Justamente por isso tenho que agradecer.

    Obrigada!

    • brunogarcez disse:

      Muito obrigado, Mila, pelos gentis comentários. Por favor, siga acompanhando o Mural e, se estiver contente com o conteúdo, recomende-o para os amigos e amigas.

      Um grande abraço,

      Bruno Garcez

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