Onde os olhos dos jornalistas não alcançam

O que se convencionou chamar de jornalismo cidadão pressupõe que pessoas sem formação tradicional como jornalistas possam utilizar ferramentas da tecnologia moderna para gerar e distribuir conteúdo, seja criando textos ou postando fotos e vídeos.

A internet permitiu que tanto um empresário, como Vander Ramos, morador do bairro do Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, crie um site contando os problemas que afetam a sua região, como um ativista britânico, que atende pela alcunha de Guy Fawkes, criasse um blog sobre a política de seu país e que vez por outra “fura” a cobertura da mídia tradicional da Grã-Bretanha.

Guido se diz “um jornalista, um jornalista-ativista, que publica por meio de um website”. Ele também afirma sem pudores que “não acredita na imparcialidade e nem finge tê-la”.

Por se prestar a coberturas feitas por amadores ou por ativistas de diferentes causas, muitos jornalistas tradicionais torcem o nariz para o chamado jornalismo cidadão, por julgá-lo ou pouco profissional ou muito tendencioso.

Mas em diversas situações, esses repórteres da nova era trazem luz a incidentes que poderiam passar despercebidos pela grande mídia e acabam, assim, por pautá-la.

Durante a etapa mais sangrenta da Guerra do Iraque, muitos jornalistas de órgãos de imprensa tradiconal viram seu raio de ação, por questões de segurança, limitado, se muito, a trechos da capital Bagdá.

Na ocasião, os relatos de um local, Salam Pax, trouxeram um colorido e um caráter humano que acabava faltando à cobertura da mídia ocidental, por conta das severas restrições que esta sofria, devido às condições no país.

Mais recentemente, a blogueira Yoáni Sanchez tornou-se talvez a mais célebre dissidente política cubana em todo o mundo e também a principal, se não a única, fonte alternativa de informações às oferecidas pela imprensa oficial cubana.

Fenômeno parecido se deu no Irã, pouco após a eleição presidencial na qual Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito.

Militantes que questionavam a idoneidade da votação e que protestavam contra a violência desencadeada pelas autoridades oficiais contra os militantes anti-governo se tornaram a principal e, em dado momento, quase que as únicas fontes de conteúdo alternativo sobre o embate político no país, já que inúmeros jornalistas ocidentais haviam sido expulsos do Irã.

Foi um manifestante iraniano e cinegrafista amador que registrou a morte de Neda Soltani, uma jovem que estaria protestando pacificamente e que teria sido vítima de um disparo feito por um paramilitar iraniano. A chocante imagem correu o mundo e Neda se tornou um símbolo da resistência ao regime.

E ativistas seguem ainda hoje se valendo de redes sociais para postar conteúdos e realizar protestos online contra o governo do Irã.

Mas há casos também em que a cobertura cidadã acaba sendo acometida pelas mesmas restrições que atingem a cobertura tradicional, como ocorreu no Haiti, pouco após o terremoto que assolou o país.

No início, cidadãos comuns se valeram de mídias sociais para veicular fotos e pedir auxílio, já que, apesar de a infra-estrutura do país ter sido duramente abalada, as conexões via satélite permaneceram intocadas, o que permitia o envio de conteúdo por telefones celulares, mas, com a queda do sistema de energia, o serviço de divulgação de informações logo passou para as mãos dos agentes tradicionais, repórteres e fotógrafos profissionais.

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