O que é o Mural e o que quer o Mural?

Existe uma enorme lacuna na imprensa brasileira e um público imenso que acaba desassistido e que dificilmente é retratado na nossa mídia sem que se recorra ao estereótiopo ou ao preconceito.

O surgimento do Mural se deu pela vontade de ocupar esse grande vazio e de tentar reagir a essas distorções.

Trata-se de um projeto multimídia que abriga textos e vídeos produzidos por “correspondentes comunitários”: alunos de jornalismo, blogueiros, jovens com alguma experiência em jornalismo e outros interessados egressos de comunidades de periferia e de regiões pobres.

A orientação dada à primeira turma que participou do curso, realizado aos finais de semana e na sede da Folha de São Paulo, foi a de tentar produzir a partir de fatos locais, mas torná-los de interesse geral, lembrando o mote do escritor russo Lev Tolstói:

“Seja universal, fale de sua aldeia”.

Por isso, uma das primeiras tarefas foi a de documentar o dia a dia de profissionais que atuassem no comércio, aos finais de semana, na região em que é situada a Folha de São Paulo, na região central da cidade.

Um outro grupo de alunos preferiu mostrar o cotidiano de um articulado morador de rua, que também residia nos arredores do local do curso.

Os exercícios vistos em sala de aula sempre utilizam referências ligadas de alguma maneira ao cotidiano dos alunos.

Uma das tarefas que formulei, que visava estimular a criatividade e a capacidade de contar uma história com concisão, mas também sem deixar de fora elementos essenciais, era a de criar um obituário, tomando como referência o protagonista de uma música da banda de hip hop Detentos do Rap.

Outro exercício tinha como objetivo central a discussão sobre a necessidade de se oferecer múltiplas visões na criação de conteúdo jornalístico.

O exemplo dado foi a forma como diferentes órgãos de imprensa e um blogueiro do bairro de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, cobriram a ocupação da região pela polícia.

Entre as principais tarefas da primeira turma do Mural esteve a de encontrar pautas que tivessem ligação com o cotidiano de cada aluno, mas que pudessem ter, também, um gancho eleitoral.

Os enfoques foram variados. Telma Amorim, uma jovem de 18 anos, natural da Vila Rubi, na zona sul de São Paulo, falou sobre a longa espera da população de seu bairro por obras essenciais de melhoria que obrigam os locais a conviver há 12 anos com ratos e esgotos a céu aberto.

A morosidade também foi o tema da reportagem de Cacau Ras, um realizador de vídeo e instrutor de oficinas culturais no bairro do Itaim Paulista, na zona leste da cidade.

Mas a lentidão que ele relatou foi a de construir uma das chamadas “Fábricas de Cultura”, em seu bairro. Uma promessa feita há quase dez anos pelo governo do Estado.

Por meio de histórias como essas, os “correspondentes comunitários” podem oferecer, por meio da produção colaborativa de conteúdos multimídia, uma “visão de dentro” que raramente é vista na grande mídia.

Os jornais, revistas e telejornais tradicionais tendem a se voltar para a periferia somente em ocasiões especiais e, em sua maioria, situações trágicas, quer elas envolvam criminalidade ou desabamentos e enchentes.

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