A favela dos moradores

por Valesca Montenegro

Mural

“Você já viu a favela dos bandidos, você já viu a favela dos policiais. Agora você vai ver a favela dos moradores”

No dia 27 de agosto, os cinemas brasileiros renderam-se a uma obra cinematográfica vinda da periferia. “5x favela – Agora por nós mesmos”, um filme dirigido coletivamente por novos cineastas, com a produção de Carlos Diegues e Renata de Almeida Magalhães.

O longa-metragem, uma segunda versão para o primeiro “Cinco vezes favela”, lançado em 1961, nasce com cinco enredos diferentes, porém com a mesma essência: as várias realidades da vida em uma comunidade.

O filme é resultado do trabalho de oficinas de roteiro, direção, produção, fotografia, arte, edição, finalização e interpretação, com o objetivo de preparar tecnicamente jovens cineastas para a realização de filmes.

O trabalho foi desenvolvido nas comunidades cariocas: CUFA (Cidade de Deus), Nós do Morro (Vidigal), Observatório de Favelas (Complexo da Maré), AfroReggae (Parada de Lucas) e Cidadela/Cinemaneiro (sede na Lapa, reunindo moradores de comunidades da Linha Amarela).

O filme aborda questões sociais e levanta argumentos de realidades de um país contraditório por natureza, como em uma das histórias de Fonte de renda, em que um personagem diz: “Venho de um lugar onde o certo e o errado se misturam”.

Os demais enredos: Arroz com feijão, Concerto para violino, Deixa voar e Acende a luz retratam as alegrias, tristezas e, principalmente, a Vida, vindas das comunidades. Os episódios renderam aos seus diretores prêmios como: Margarida de Prata 2010 no Festival de Gramado – RS, e Sete Meninas de Ouro no Festival de Paulínia, incluindo o de melhor filme para o júri oficial e para o júri popular.

Cinco vezes favela e o cinema novo

Na década de 60, surgia o Cinema Novo no nosso país. “Com uma câmera na mão e algumas ideias na cabeça”, jovens realizavam filmes que contavam o dia a dia e as histórias do povo brasileiro, fazendo o contrário dos estúdios americano e europeu, que adotavam estéticas de cinema tradicionais na época.

Nesse contexto, surgiram cinco jovens cineastas, participantes do movimento estudantil universitário de onde surgiu o filme “Cinco Vezes Favela”, dirigido por Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e Miguel Borges. Produzido pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE), o filme se tornou um marco do cinema moderno brasileiro.

Agora por nós mesmos!

“Se tem alguém que pode falar de favela é quem mora lá”
Márcio Vito – ator

O longa faz com que as comunidades se vejam retratadas para que valorizem suas experiências de vida. “5x favela” é a prova de que também há cultura nas comunidades. Apesar das dificuldades, não ficaram fora do roteiro algumas cenas cruéis, porém reais, e outras singelas.

Um filme com produção e roteiros nada primitivos faz-nos valorizar mais o cinema nacional, principalmente os que têm histórias vindas da periferia, quebrando o estereótipo de pobreza, e só violência, encontrados em algumas favelas cariocas, que foram expostas para o mundo em outros filmes brasileiros.

Cada vez mais estas histórias devem ganhar espaço entre as produções “hollywoodianas”. Assim esperamos!
Vale à pena conferir!

Link do trailer: http://www.youtube.com/watch?v=UIM-BIBeclk&feature=player_embedde

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2 respostas para A favela dos moradores

  1. O que posso dizer do filme? Ainda não o vi por falta de tempo, e também não conheço a primeira obra de 1961. Mas pelo que pude ler no texto da Valesca, percebi que o objetivo do filme vai de encontro com os meus objetivos quanto ao bairro onde moro: Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. Falo diretamente de um dos lugares mais mal falados pela grande mídia e e pelos espectatores dessa grande mídia.
    O mundo externo às favelas ignoram completamente o conteúdo artístico cultural produzido pelos moradores dessas comunidades. Só observamos a grande mídia presente nas favelas para cobrir assaltos, sequestros, mortes, estouro de cativeiros, “bocas” do tráfico, ou para noticiar tragédias naturais como enchentes e deslizamentos, cravando estigmas de pobres coitados na população periférica e monstrificando a nossa imagem para quem mora distante da periferia. Talvez eu esteja sendo repetitiva nas palavras, mas meu objetivo é o de revelar a outra face da Cidade Tiradentes. A face das pessoas do bem, solidárias, de gente forte, com sede de viver, que luta pelo que quer, que não se deixa abater pelo cansado, dos artistas, de gente talentosa, produtores de arte na comunidade.

    Concordo plenamente com a frase do ator Márcio Vito que diz: “Se tem alguém que pode falar de favela é quem mora lá”.

    Penso ser louvável toda e qualquer iniciativa de levar a voz da periferia até os ouvidos incrustados de tanta sujeira. Muito bom que o cinema, que foi um dos responsáveis por manchar a imagem das favelas cariocas, agora também seja o responsável por limpar a sujeira que fez. Tomara que tudo isso se torne uma reação em cadeia!

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