As caixas do nosso cotidiano

por Anelize Moreira

Mural

São nas pequenas situações que percebemos a falta de compaixão, coragem e a hipocrisia das instituições e das pessoas em ajudar quem precisa.

No inicio do ano, em fevereiro para ser mais precisa, por volta das 22h30, estávamos eu e um amigo, na estação de metrô Guilhermina-Esperança, quando uma menina de uns seis anos, morena, de cabelos encaracolados e uma bolsinha de lado, surgiu do nosso lado. Ela foi em direção a uma caixa grande, aquelas que ficam no metrô da campanha do agasalho, olhou e fez meia volta. Foi até sua mãe e disse “tem sim”. A mãe da menina era loira, tinha um sorriso castigado pela sua condição e um bebê no colo, que calculamos ter pouco mais de um mês.

A mãe da menina se aproximou da caixa e pediu pra filha fazer o mesmo. As duas ficaram praticamente encostadas em nós. Não entendi o que elas queriam. Até chegou a me ocorrer um pensamento típico de quem mora nas grandes cidades e está assombrado com a violência (mas não admite que é exatamente esse tipo de preconceito e indiferença é que gera a violência). Um pensamento medíocre e clichê do tipo: “Será que ela vai nos assaltar”.

A mãe disse à menina: “Temos que ser rápidas, ele está olhando para o computador”. Eu e meu amigo olhamos um para outro sem entender. Ela estava falando sobre o funcionário da SSO, que estava exatamente em frente à caixa.

Percebendo que nós não estávamos entendendo nada, a mãe nos disse: “Eles não nos dão essa roupa, já pedi, mas eles falam que não podem dar, mas eu preciso. Vou pegar essa roupas para as minhas filhas”. Eu e meu amigo consentimos com a cabeça, para que ela percebesse que não estávamos desaprovando a atitude dela.

Ela pegou a primeira sacola com roupas apreensiva que o funcionário fosse vê-la e pediu para a filha segurar. Tentou abaixar e pegar mais uma sacola, mas não conseguiu.

Ela teria que ser cautelosa, qualquer movimento brusco, o funcionário iria se desconcentrar do computador e vê-la.

A mãe então deu o bebê para a filha segurar e antes de tentar pegar a segunda sacola nos explicou: “Morava no Jardim Romano, esse bairro que está passando toda hora na TV e perdi tudo que tinha. Estou em um hotel na Penha pago pela prefeitura, tenho seis filhas, e estamos sem ter o que vestir, a chuva levou tudo que tínhamos”.

No inicio do ano, os moradores do bairro na zona leste de São Paulo, foram castigados pelas fortes chuvas perdendo tudo que tinham e vi ao meu lado não mais uma entre tantas famílias, mas uma mãe desesperada, pois suas filhas não tinha o que vestir e ela tinha que se arriscar por elas.

Começamos a conversar com mulher e perguntei se ela já tinha pedido as roupas da caixa pra alguém do metrô. E ela disse que sim, mas eles a expulsaram da estação e agora ela tem que pegar assim às escondidas, pois as meninas precisam das roupas.

Ficamos indignados vendo a burocracia para ajudar alguém. Se ela precisa, porque não deram a roupa pra ela? Provavelmente porque as roupas são encaminhadas para alguma instituição de caridade? – Pensei eu a apoio. A moça precisava e a roupa estava ali, Ela praticamente estava tendo que “roubar” roupas que a população cedeu para doação.

Uma funcionária da limpeza avistou a mulher tentando pegar a terceira sacola. Ela se apressou, conseguiu pegar e comentou: “aquela funcionária já meteu com a língua nos dentes uma vez”. Completou que tentou pegar as roupas e ela foi expulsa de lá. A funcionária comentou com um colega da bilheteria do metrô e ficaram a observando.

A essa altura moça já tinha nos agradecido por ter a encobertado e saiu como se fosse uma fugitiva com duas filhas.

Já o funcionário da SSO, fez vista grossa, mesmo debaixo do seu nariz, deixou com que a mulher pegasse as roupas e fingiu estar tão atento que não percebeu os movimentos na caixa a sua frente. Ele devia pensar do mesmo modo, aquelas roupas da Campanha do Agasalho são destinadas à estas pessoas que precisam e tudo que ele podia fazer era fingir que não viu para não ter que cumprir com as regras do seu trabalho que é fazer comque essas roupas sigam o seu destino.

São encaminhadas para instituições de caridade. A estação é a poucos minutos do bairro atingido pelas chuvas. Penso que podia ser minha família e talvez eu no lugar daquela moça.

Fiquei indignada com as pessoas do metrô, comigo, com o mundo…

Pensei que deixei escapar uma oportunidade de ajudar aquela família de algum modo. Tudo que fiz foi servir de muro para que ninguém percebesse que estava pegando as roupas. Me perguntei, isso é tudo que posso fazer?

Enfim a história serviu de lição, como essas caixas de doações que aparentam ser repletas de solidariedade, na verdade, escondem a burocracia e uma espécie de marketing do tipo “estou fazendo o bem”.

Apesar disso, o que me intrigou foi que essa é somente uma, entre tantas famílias que sofrem no Jardim Romano. Como será que vivem as outras depois de tantas enchentes?

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2 respostas para As caixas do nosso cotidiano

  1. Apatia…

    Volta e meia, ouço falarem por aí, que o mau do século é a depressão. Considerada a atual doença que assola o mundo. Quando na verdade, o que vejo é a apatia tomar conta do coração das pessoas.

    De que adianta vermos noticiários, nos comover com histórias tristes de famílias inteiras despedaçadas por desgraças como enchentes, incêndios, etc… Se nada fizermos para pelo menos -tentar- mudar essa realidade?

    E se as vezes nos comportarmos como “muro”, se, de certa forma, isto for ajudar alguém, que mal haverá?

    Há quem diga: ” – Somente a minha ajuda, não mudará nada.” Pensamento típico do doente apático.

    Imaginem: Cada pessoa do mundo, ajudando pelo menos uma pessoa que nescessite de ajuda, em uma corrente do bem, como naquele filme…

    Neste caso, a simples atitude de servir como “muro” para acobertar o suposto roubo à “caixa solidária”, fez toda a diferença na vida daquela mulher e suas crianças.

    Mas ainda assim, as pessoas preferem crer que não farão diferença alguma.

    Infelizes, os apáticos!

    Muito bom o post Ane!!!

  2. Wilheim Rodrigues Macedo Lima disse:

    Nem preciso dizer que seu texto, envolto em jornalismo literário, ficou ótimo. Seria desnecessário. Prefiro dizer que você é surpreendente, senhorita. Quem a vê pela primeira vez, a enxerga pequenina, macérrima, inofensiva. Mas basta enxergá-la diretamente nos olhos para encontrar duas esferas flamejantes, com força, ânimo e curiosidade impossíveis de conter. Ou então esperar que você abra a boca (ou pegue uma caneta, encontre um teclado), para sentir-se nanico diante da atitude contida nas palavras dessa pequena grande mulher que você é.

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