Um aluno feliz

Mais uma turma do Mural que se vai. Foi o segundo grupo do curso voltado para a formação básica de  correspondentes comunitários egressos da periferia de São Paulo.

A ideia é recrutar e oferecer algumas ferramentas simples para repórteres, blogueiros, radialistas, videastas, jornalistas profissionais ou não, interessados em criar relatos sobre seus bairros.

O segundo grupo do Mural passou pela sede da Folha de São Paulo, que gentilmente cedeu suas instalações para mais uma edição do curso, ao longo de dois finais de semana e concluiu suas atividades neste domingo, dia 19.

As aulas sempre consomem bastante. É preciso pensar em exercícios diversos, evitar a repetição, a mesmice e é necessário tentar surpreender os alunos. E nem sempre se acerta. É frustrante quando há problemas técnicos contra os quais não se acha quaisquer soluções.

Mas é sempre gratificante quando o surpreendido é o instrutor. Meus alunos não tem me reservado surpresas indigestas. Nesta turma, o inesperado foi a energia criativa do grupo, sua avidez pelo debate e sua eterna disposição em encontrar meios originais de contar uma história.  

Nessa atmosfera de alta criatividade, aperfeiçoar algumas coisas vistas na primeira edição, aprofundar outras, focar melhor, tornou-se bem mais fácil.

Como estamos em vias de fechar um acordo para que um grande jornal hospede, em formato de blog, o conteúdo gerado pelos trainees, a ênfase foi mais em textos curtos, sucintos, mais informais, com cara de relatos de blogueiros mesmo.

Não foi uma tarefa difícil para este grupo. Uma turma de jovens inteligentes e com pendores literários. Muitos já tinham os seus blogues e seguriam alimentando-os constantemente, independentemente de nossos caminhos terem se cruzado ou não. Mas a minha sorte foi que nossos caminhos se cruzaram.

No primeiro final de semana, começamos como sempre fizemos, discutindo as manchetes dos jornais do dia, com especial atenção para o fato de elas estarem ou não retratando comunidades periféricas. Se seu bairro está nas manchetes, você gosta do tom da reportagem, a ênfase está só no lado ruim ou há destaque para temas positivos ligados à sua comunidade? Indgações desse tipo renderam debates acalorados.

Aliás, quase todos os exercícios renderarm debates riquíssimos. Uma das primeiras tarefas foi criar um texto –e cada um optou por um formato diferente — inspirado no relato oferecido pelo narrador da música “A Vítima”, dos Racionais MCs.

Depois, a ideia era escrever outro relato, desta vez inspirado na polêmica de alguns anos atrás despertada por um texto polêmico que o apresentador Luciano Huck escreveu pouco após ter sido assaltado em um sinal de trânsito em São Paulo e as reações que se seguiram ao seu relato, entre eles uma crônica do autor Ferréz, que procurava ver o ponto de vista do assaltante.

No dia seguinte, os alunos foram às ruas, em grupos, a fim de captar imagens para vídeos gravados na região central de São Paulo. Os temas foram livres. E, mais uma vez, o pessoal não decepcionou. A arte no metrô, o comércio na região, os moradores locais e as eleições.

Não fosse por termos apanhado sem dó nem piedade nas mãos de uma edição aparentemente amaldiçoada do Adobe Première, a experiência teria sido mais agradável. Mas, enfim…

Na segunda semana, editamos os vídeos — alguns conseguiram, outros tantos tiveram problemas, mas irão conclui-los por conta própria.

Além disso, mais tarefas de texto. O relato trágico sobre uma cantora que teve complicações no parto e que cumpriu um calvário burocrático por diferentes hospitais se transformou em um exercício sobre como conciliar concisão sem abrir mão da emoção, até mesmo ao escrever um breve relato para o Twitter.

Uma tarefa que consistia em indicar as funções de diferentes órgãos públicos se transformou em uma forma de criar pautas sobre a atuação destes órgãos entre a as comunidades dos diferentes participantes. Mais uma vez, os alunos me impressionaram por sua rapidez.

Por fim, cada um teve de fazer o perfil do colega, para incluir no blog. Houve relatos emocionados, outros engraçados, mas todos muito singelos e elegantes, características, talvez, mais fortes dessa turma tão farta em pontos altos.

A aluna Juliana Torres diz que se houvesse um Bruno Garcez para cada 20 estudantes de jornalismo, as coisas seriam diferentes.

Eu acho o contrário, Juliana. Quando comecei a dar este curso, eu nunca havia me aventurado a ensinar nada, nunca havia dado aulas e não tinha certeza de por onde iria.

Bolei exercícios que eu achava que teriam a ver com a vivência de cada um, tarefas que os alunos poderiam usufruir.

A resposta que venho obtendo com os alunos foi o mais rico aprendizado que eu poderia ter obtido e talvez uma das melhores experiências de toda minha vida profissional.

Hoje, sei que posso, que gosto e que tenho o que oferecer como professor. Mas se cheguei aqui, não foi sozinho. Dei a sorte de contar com alunos incríveis.

Se cada jornalista tivesse a chance de ensinar e aprender com um grupo assim, as coisas seriam diferentes…

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7 respostas para Um aluno feliz

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  2. Vander Ramos disse:

    Olá Turma

    Parabéns pela conclusão do curso. Esperamos agora realizar pautas com membros das duas turmas.

    Valeu Bruno…

    Vander Ramos
    http://www.itaimpaulista.com.br
    http://www.saomiguelpaulista.com.br

  3. Aproveitando o ensejo, farei aqui as minhas considerações finais sobre o curso.

    Busquei o Mural, porque eu queria ter contato com a esfera jornalística, ter contato rápido com técnicas para escrever bons textos, saber que linguagem usar, enfim, conhecimento que me auxiliasse a desenvolver meu projeto. E também, porque o objetivo da oficina ia de encontro com os meus objetivos em relação ao meu projeto, o Circuito Cultural Cidade Tiradentes, que consiste em revelar as artes produzidas dentro da minha comunidade, tão cheia de chagas, causadas pela grande mídia.

    Confesso! Saber que a pessoa que aplicaria a oficina aos selecionados, seria um jornalista da BBC, me assustou! E depois, saber que eu era a única da turma (e talvez a mais velha, rs) a não possuir nível universitário, tão pouco estar cursando jornalismo, me deixou mais intimidada ainda.
    Por quê? – Sei lá! Pensei que me sentiria inferiorizada, que seria ridicularizada pelos demais, blá blá blá! Coisas da minha cabeça.

    Tá bom. Pré-Conceito, admito!

    No primeiro dia de aula, cheguei cedo, para não ter qualquer problema que me fizesse perder a oportunidade.
    Lá fora da sede da Folha de São Paulo, estava eu, aguardando ansiosa pelo começo das aulas. Até me senti como uma adolescente no seu primeiro dia de colegio. E parecia que era mesmo. Afinal, terminei o ensino médio em 1997. Desde então, nunca mais pisei em uma sala de aula.

    Ele chegou, me cumprimentou com um beijo no rosto e disse: ” – Oi, prazer! Eu sou o Bruno. Você veio para a oficina?” Eu disse: – Sim. Ele disse: ” – Beleza! Vamos subir, então?”

    Na sala, todos presentes, eis que começam as apresentações. Todos, um pouco tímidos, todos desconhecidos. Que medo!
    Se bem me lembro, fui a primeira a abrir a matraca no primeiro exercício: comentar as notícias da periferia, se encontradas nos jornais do dia.

    Me apresentei em alto e bom tom, de certa forma para me impôr logo de início, para que todos soubessem quem era eu, e porque eu estava ali, ainda com aquela idéia (absurda, e preconceituosa é claro!) de que eu seria ridicularizada.

    Totalmente equivocada! Para a minha surpresa, ótima surpresa!

    Jovens, extremamente inteligentes, divertidos, sagazes, coerentes cada um com sua realidade, e a maioria, vindos da periferia, assim como eu.

    Bem, daí em diante, todos vocês conhecem o desenrolar da história, não é? Foram quatro dias maravilhosos que dariam um livro, com troca de conhecimento, experiências, e convivência na companhia de vocês, somados à toda a vasta experiência profissional deste Jornalista, com toda a propriedade da profissão. E que agora pode se considerar também o Professor Bruno Garcez, porque a lição, eu aprendi direitinho!

    Valeu a pena cada segundo, cada minuto, até as horas que perdemos, “tentando” editar os videos…rsrsrsrs

    Mais do que técnicas, linguagens, termos, ou burocracias, que é o que eu fui buscar. Eu trouxe comigo, maneiras diferentes de pensar, diferentes visões de mundo, os sorrisos, as gargalhadas das boas piadas e sacadas, os almoços e as longas esperas pelos nossos pratos (rs), e um doce gostinho de QUERO MAIS.

    Gostaria que o curso durasse mais uns 30 dias, ou mais 365 dias, ou mais, e mais, e mais…

    GALERA, MUITÍSSIMO OBRIGADO, À TODOS!!!

    PS* Me desculpem o texto enooooorme. Não pude resumir!

  4. Anelize Moreira disse:

    Lendo este texto que resume os nossos intensos dias de oficina, não tem como não comentar e, aliás, não se emocionar também. Concordo com a Gisele, Juliana e com você Bruno.
    Já participei de outros cursos, cujo conteúdo também foi enriquecedor e mais do que isso transformador. Mas, este me surpreendeu, porque pensava ser mais um curso complementar em que me iria agregar valores apenas profissionais, mas me enganei. A “Anelize” saiu modificada de tudo isso. Há quem diga “mas só um final de semana fez isso com você?”. E minha resposta foi “Sim! Em horas percebi a injeção de ânimo que recebi”.
    Hoje tenho certeza do que quero fazer e do que posso fazer para o mundo por meio do jornalismo. A vida pode me levar para outros caminhos, mas nesta etapa sei o que quero. Já estava me achando demasiadamente utópica para seguir na profissão. Para dizer a verdade, chegando ao último ano de faculdade, estava já pensando que o jornalismo que acredito não existia mais, mas encontrei pessoas no mural que tem o mesmo desejo. Pessoas que querem fazer o bem e mostrar que existem histórias que merecem ser publicadas.
    E o que mais me surpreendeu é que não havia nenhuma competitividade, nem ar de arrogância, superioridade (característica marcante na nossa profissão) nem entre os integrantes e, aliás, nem por parte do instrutor, que poderia ser daqueles jornalistas que se gabam por ter trabalhado em grandes veículos de comunicação. Presenciei o contrário, pessoas simples, engraçadas, inteligentes e que estavam abertas para desbravar juntas os conhecimentos oferecidos nas aulas. E só quando há um encontro entre pessoas que estão de fato a fim de fazer algo diferente, que resulta nesta turma do Mural Brasil que vou carregar sempre no coração. Quem sabe isso tudo irá se estender e é só um inicio para gente continuar e fazer mais projetos juntos?
    O que temos é somente a agradecer por existirem pessoas com a preocupação de promover projetos como estes e que com certeza na função de educadores deveria haver mais Bruno Garcez, mais Sergio Gomes, Jaqueline Lemos, Pedro Ortiz, Marcos Capellari, infelizmente são poucos e raros. Mas me sinto feliz por ter encontrado vocês verdadeiros educadores neste e em outros cursos e todas as pessoas como vocês integrantes do mural que gostam de verdade de trocar experiências e aprendizados. Entre tantos, foram poucos que poderia citar que tem essa vontade genuína de ensinar e formar multiplicadores de conhecimentos e assim modificar o mundo, mas estes foram essenciais e agradeço por meu caminho ter cruzados com o de vocês.

    Vixi acho que meu texto ficou sensível demais né?rs
    Também me estendi Gi, fiz um novo texto, típico de jornalista…rs…e posso dizer que você já está inserida e muita mais engajada que muitos que buscam apenas um diploma. Boa sorte!

    Bjos e saudades

  5. Que curso… que turma! Não deixo de indicar uma experiência dessa para nenhum estudante de jornalismo que usa o tempo livre para ser um pouco mais cidadão. Quando digo que precisamos de mais “Brunos”, quero dizer que não é fácil encontrar um jornalista, ou um veículo de imprensa, que nos dê a voz e a oportunidade que encontramos enquanto fazíamos o Mural.

    Posso dizer que, até onde vi, sai da periferia o suprasumo da nova cara do jornalismo brasileiro. Vou ter muito orgulho de ter vivido esses finais de semana ao lado de pessoas que me acrescentaram tanto!

    Espero estar com vocês no futuro!
    Besos!

  6. AWWWWWWWWWWWWWWW ♥
    quase choro, falo mesmo!

    A gente teve muuita sorte, Bruno! Muito obrigada por tudo. Comentei com a Patrícia, inclusive, que você deveria pensar em dar aulas de Introdução ao Jornalismo lá na PUC um dia, né? Não pra nossa turma (até porque daqui a pouco nem teremos mais essa disciplina), mas para os que virão. Eles terão a mesma sorte que eu, assim como outros 19 jornalistas, tiveram.

    Cheers!

  7. Anelize Moreira disse:

    Lendo este texto que resume os nossos intensos dias de oficina, não tem como não comentar e, aliás, não se emocionar também. Concordo com a Gisele, Juliana e com você Bruno.
    Já participei de outros cursos, cujo conteúdo também foi enriquecedor e mais do que isso transformador. Mas, este me surpreendeu, porque pensava ser mais um curso complementar em que me iria agregar valores apenas profissionais, mas me enganei. A “Anelize” saiu modificada de tudo isso. Há quem diga “mas só um final de semana fez isso com você?”. E minha resposta foi “Sim! Em horas percebi a injeção de ânimo que recebi”.
    Hoje tenho certeza do que quero fazer e do que posso fazer para o mundo por meio do jornalismo. A vida pode me levar para outros caminhos, mas nesta etapa sei o que quero. Já estava me achando demasiadamente utópica para seguir na profissão. Para dizer a verdade, chegando ao último ano de faculdade, estava já pensando que o jornalismo que acredito não existia mais, mas encontrei pessoas no mural que tem o mesmo desejo. Pessoas que querem fazer o bem e mostrar que existem histórias que merecem ser publicadas.
    E o que mais me surpreendeu é que não havia nenhuma competitividade, nem ar de arrogância, superioridade (característica marcante na nossa profissão) nem entre os integrantes e, aliás, nem por parte do instrutor, que poderia ser daqueles jornalistas que se gabam por ter trabalhado em grandes veículos de comunicação. Presenciei o contrário, pessoas simples, engraçadas, inteligentes e que estavam abertas para desbravar juntas os conhecimentos oferecidos nas aulas. E só quando há um encontro entre pessoas que estão de fato a fim de fazer algo diferente, que resulta nesta turma do Mural Brasil que vou carregar sempre no coração. Quem sabe isso tudo irá se estender e é só um inicio para gente continuar e fazer mais projetos juntos?
    O que temos é somente a agradecer por existirem pessoas com a preocupação de promover projetos como estes e que com certeza na função de educadores deveria haver mais Bruno Garcez, mais Sergio Gomes, Jaqueline Lemos, Pedro Ortiz, Marcos Capellari, infelizmente são poucos e raros. Mas me sinto feliz por ter encontrado vocês verdadeiros educadores neste e em outros cursos e todas as pessoas como vocês integrantes do mural que gostam de verdade de trocar experiências e aprendizados. Entre tantos, foram poucos que poderia citar que tem essa vontade genuína de ensinar e formar multiplicadores de conhecimentos e assim modificar o mundo, mas estes foram essenciais e agradeço por meu caminho ter cruzados com o de vocês.

    Vixi acho que meu texto ficou sensível demais né?rs
    Também me estendi Gi, fiz um novo texto, típico de jornalista…rs…e posso dizer que você já está inserida e muita mais engajada que muitos que buscam apenas um diploma. Boa sorte!

    Bjos e saudades

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