A desesperada espera pelo ônibus

por Leandro Machado

Mural

A humanidade deveria ser dividida em dois grupos: um com pessoas que esperam ônibus que passam rapidamente e outro com o resto do mundo – os infelizes que aguardam o veículo por mais de meia hora.

O primeiro grupo seria feito de pessoas felizes, sorridentes, que usam roupas coloridas e que nunca têm tempo para comprar uma tapioca naquela barraquinha ali do lado.

O segundo grupo – ao qual pertenço – contém pessoas tristes, angustiadas, que andam de preto e sempre contam moedinhas para comer a tapioca. – De queijo, por favor, Seu Zé.

A saga de esperar o ônibus começa quando piso no ponto e o vejo lotado. O fato de ter muitas pessoas ali me faz imaginar (não sei por quê) que hoje finalmente ele passará mais rápido.

Há um clima no ar: em dez minutinhos ele aparece, chegarei cedo em casa, vou comer aquele belo sanduíche que minha mãe está fazendo e, finalmente, dormir!

Os dez minutinhos se passaram, os outros ônibus, também, levando as pessoas felizes. E eu lá: mais cinco minutos e ele chega, não tem erro. Já estou até ouvindo o ronco característico que ele tem.

Quinze minutos: nesse momento vejo a senhora que pega o mesmo ônibus que eu. Não a conheço e não sei seu nome, a única coisa que sei é que ela é vendedora da Avon. Nos damos bem, isso que importa.

Aí, nós trocamos o diálogo que se repete todos os dias, sem exceção: – Tá demorando hoje, né? – pergunto. – É verdade, será que quebrou pelo caminho? – ela responde, com outra pergunta. Nos olhamos. Todas as pessoas que esperam ônibus demorados entendem esse olhar. Como assim quebrou? Será? Mas, aí, vai demorar umas duas horas! Não pode ser. E o meu sanduíche?

Trinta minutos: não tem quase ninguém no ponto. Apenas eu, a vendedora da Avon, o Zé da Tapioca e uma louca ali do lado que acredita ser recepcionista de hospital.

Quarenta minutos: desisto! Minha vida é uma bosta, trabalho e estudo demais, ganho pouco, durmo menos ainda, meu tênis está furado e ainda sou obrigado a comer essa tapioca horrível que o Zé faz. Tudo isso sabe por quê? Porque a porcaria do ônibus não passa no horário certo, nunca.

É aí que o milagre acontece: escuto lá de longe o ronquinho do danado. Será ele, o meu ônibus? Logo vejo aquele letreiro brilhante, lindo. É ele, mesmo. – Estive esperando por você – digo para o ônibus, com a voz embargada. Ele não responde, apenas estaciona. Entro e esqueço essa demora de mais um dia. Amanhã tem mais. Agora só penso no sanduíche à minha espera.

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4 respostas para A desesperada espera pelo ônibus

  1. Mayara Penina disse:

    Muito bom Leandro! Conseguiu contar a história de muita gente! huahua

  2. Karol Coelho disse:

    É sempre assim mesmo!
    A gente sofre!

    Com essa, deu vontade de escrever sobre o meu drama aqui no Campo Limpo com o terminal inaugurado no final do ano passado. TERRÍVEL!

    Nós e o drama da espera do busão!

  3. Adhemar Juan disse:

    Perfeito, Leandro! É tudo o que todos passam quase todos os dias. Pra minha sorte agora tenho voltado de carona, assim como o sanduíche mais rapido hahaha

    Abraços,

    Adhemar FILHO

  4. Rafael disse:

    Parabéns, Leandro. Texto incrível!

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