Máquina 1 e 2: o que pensam os eleitores de Paraisópolis

por Vagner de Alencar

Mural

Enquanto os “santinhos”, como diz o povo lá da Bahia, em referência aos folhetos de propaganda de candidatos às eleições, estavam estampados das mais diversas formas, divulgando partidos, números e a fuça dos elegíveis aos cargos de deputado federal e estadual, senador, governador e presidente, ali pela calçada e praticamente por toda a rua de Paraisópolis, quando não expostos em faixas e outras formas de divulgação, o salão de cabeleireiro ao qual eu me encontrava sequer nome possuía.

Aguardava para ser atendido, depois, claro, que mais dois clientes que estavam à minha frente tivessem as madeixas crespas aparadas. Na TV de 14 polegadas pendurada na parede de um azulejo branco já encardido, era apresentado o horário político, no decorrer dos 40 minutos que ultrapassavam as oito horas da noite de uma sexta-feira de temperatura amena na capital paulista.

O sotaque nordestino de um deles foi evidenciado, assim que balbuciou os primeiros argumentos acerca do discurso de um dos candidatos à Presidência. Ele aparentava não mais que 30 anos. Apontou com o dedo fino indicador, a candidata à Presidência, que aparecia na propaganda eleitoral.

Enquanto seus cabelos crespos de cor preta escorriam pelo avental branco preso até a altura de seu pescoço negro, o homem comentou brevemente a proximidade com os candidatos, quando alguns deles estiveram em Paraisópolis, no final do mês passado, e que naquele momento, ali na TV já pareciam inatingíveis para ele. “Falar é fácil, vamos ver se fazem né?!”, indagou.

O horário político pareceu aguçar os comentários no miúdo salão. O cabeleireiro passava a máquina número 1, na lateral esquerda do cabelo do homem, quando o cliente disse ainda não saber em quem votar.

“É preciso pensar com consciência, porque não adianta reclamar que político é ladrão, se é a gente que tem o poder de votar nele” – afirmou ele. – É a mesma coisa que abrir a porta da nossa casa e deixar o ladrão entrar e roubar – completou remexendo-se na cadeira.

O moço, aparentemente tímido, que aguardava a vez, ali sentado ao meu lado, no sofá de três lugares, posicionado à frente dos dois extensos espelhos do local, penetrou na conversa.

A forma de falar, através da pronunciação a letra ‘r’, indicava a naturalidade: era paulistano. Ajeitando por entre o boné, os fios de cabelo que ficavam para fora, ele disse saber em todos os candidatos que iria votar. Que priorizava, em primeiro lugar, a educação no bairro.

Olhando-se no espelho, o jovem prosseguiu, afirmando que a comunidade precisava de mais segurança. Que carecia de políticos que dedicassem mais atenção à formação dos jovens. Que a ETEC, a Escola Técnica, tivesse uma demanda maior de alunos, pois enquanto escolas dos outros bairros registravam uma acirrada concorrência em seus cursos, em Paraisópolis, não chegava a dois candidatos por vaga.

A prosa foi rendendo… Enquanto os cabelos caiam sobre o piso já lotado de fios picotados do salão sem nome. Num dado momento, divergiam entre si as suas ideias, ao mesmo tempo em que as complementavam.
O cabeleireiro, o Gê, certamente o apelido dele, pois foi assim que uma senhora baixinha de vestido azul-escuro chamou-o, quando adentrou o estabelecimento para lhe pedir que fossem trocados 50 reais, afirmou, – além de não ter o dinheiro trocado à mulher – que embora Paraisópolis tivesse virado cabo eleitoral de petistas e tucanos nas eleições, as obras de urbanização na comunidade foram de grande feito e, claro, seria um forte critério de avaliação para seu voto.

“Mas concordo também que é preciso pensar de forma geral”, inteirou o dono do salão.

Minha vez chegou… Aparei meu cabelo: número dois dos lados e na parte superior o corte com tesoura. Dei minhas opiniões. O homem e o jovem ainda ficaram por ali no fervor da discussão. O embate perdurou até o momento em o Gê me voltou os dois reais de troco pelo corte do cabelo.
E ali, naquele salão sem nome, entre nordestinos e paulistas, em uma das tantas ruas que ligam Paraisópolis, descobri que há muita gente que discute política. Que indaga. Que cobra. Que reflete. Que busca uma sociedade melhor, e que acredita que melhorias podem sim, efetivamente acontecer, quando conseguem enxergar e praticar a cidadania através do voto consciente.

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