Um incidente, várias visões

Um assalto nem sempre é destaque ou mesmo notícia na imprensa brasileira. Mas o assalto sofrido pelo apresentador de TV Luciano Huck em 2007 acabou rendendo várias páginas em 2007. O episódio rendeu também uma ”resposta” do escritor Ferréz e críticas e defesas exaltadas tanto por parte dos que defenderam o apresentador como dos que ficaram ao lado do autor. O texto de Ferréz fez até com que ele tivesse de se explicar perante a polícia.

Leia os textos a seguir e crie um post com suas impressões a respeito do incidente narrado por Huck e pelos episódios que se seguiram.

Pensamentos quase póstumos
Segunda-feira, 01/10/2007
Autor: LUCIANO HUCK . . 8296ART1N
Editoria: OPINIÃO Página: A3 0710/2870608
Edição: São Paulo Oct 1, 2007
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Pensamentos quase póstumos
Pago todos os impostos. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa


LUCIANO HUCK


LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do “Jornal Nacional” de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura.
Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio.
Por quê? Por causa de um relógio.
Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.
Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.
Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa.
Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável.
Passei um dia na cidade nesta semana _moro no Rio por motivos profissionais_ e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres.
Onde está a polícia? Onde está a “Elite da Tropa”? Quem sabe até a “Tropa de Elite”! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito.
Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso.
Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro.
Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir _com um 38 na testa_ que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase “infantis” para uma sociedade moderna e justa.
De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui.
Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber.
Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de “extraterrestres” fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo?
Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no “Roda Vida” da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, “Tropa de Elite” é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando.
Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: “Cansei”. O Lobão canta: “Peidei”.
Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar.
Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio.
Isso não está certo.

LUCIANO HUCK, 36, apresentador de TV, comanda o programa “Caldeirão do Huck”, na TV Globo. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.

Pensamentos de um “correria”
Segunda-feira, 08/10/2007


Autor: FERRÉZ

Editoria: OPINIÃO Página: A3 0710/2888422
Edição: São Paulo Oct 8, 2007
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES

Pensamentos de um “correria”
Ele não terá homenagem póstuma se falhar. Pensa: ‘Como alguém usa no braço algo que dá pra comprar várias casas na quebrada?’
FERRÉZ
ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto.
Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos.
Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada.
O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga.
Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita.
Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal.
Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito.
Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber.
Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa _mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado?
Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém.
Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra.
Não acreditava em heróis, isso não! Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto.
Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora.
Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso. Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo.
A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos!
Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa.
Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance.
O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou.
No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.
Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.

REGINALDO FERREIRA DA SILVA, 31, o Ferréz, escritor e rapper, é autor de “Capão Pecado”, romance sobre o cotidiano violento do bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, onde ele vive, e de “Ninguém é Inocente em São Paulo”, entre outras obras.

‘Tropa de Elite’
Quinta-feira, 11/10/2007


Autor: CONTARDO CALLIGARIS . . 5371CONTS


Editoria: ILUSTRADA Página: E16 0710/2894652
Edição: São Paulo Oct 11, 2007

‘Tropa de Elite’


‘Nóis goza’, mas ‘nóis sofre’ de culpa: somos desculpados de nossa inércia pela culpa
NA SEXTA passada, “Tropa de Elite”, de José Padilha, estreou em São Paulo e no Rio; amanhã, entrará em cartaz no resto do país. O filme é inspirado no livro “Elite da Tropa” (Objetiva), de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel (os dois últimos são policiais).
Padilha nos apresenta um momento de crise na vida do capitão Nascimento (o ótimo Wagner Moura), do Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM do Rio.
Além do combate entre as forças da ordem e os bandidos do tráfico, há quatro eixos de tensão: a oposição entre o Bope (um pequeno corpo de incorruptíveis treinados para a guerra) e um sistema policial inepto e corrupto; o conflito entre a vida de família do capitão, que vai ser pai, e, do outro lado, a brutalidade de sua tarefa; a luta do capitão contra o desgaste e os efeitos traumáticos de seu dia-a-dia; o embate entre a polícia e os próprios cidadãos de quem ela deveria defender a vida, a tranqüilidade e as posses.
Para cada um desses eixos, qualquer cinéfilo poderia evocar vários filmes memoráveis, sobretudo americanos. Mas o embate entre a polícia e os cidadãos que ela defende revela, no filme de Padilha, uma especificidade nacional: nas classes privilegiadas e supostamente “ordeiras”, a simpatia pelo crime e a antipatia pela polícia não são efeito, como de costume, de rebeldia e sede de aventuras. Elas nascem de um forte e difuso sentimento de culpa social ou, no mínimo, justificam-se por ele.
Mas vamos com calma. Em “Tropa de Elite”, o cineasta José Padilha conseguiu, de maneira admirável, suspender o julgamento e apresentar nossa “guerra” cotidiana como um incômodo dilema moral, sem tomar partido.
Para alguns, essa suspensão do julgamento valeu como uma negação da culpa social que, aparentemente, segundo eles, deveria orientar nossa compreensão do mundo. Com isso, o filme foi acusado de “idealizar” o Bope e de fazer uma apologia “fascista” do “Estado policial” e da tortura instituída.
Essas críticas são descabidas, mas resta a pergunta: será que não é perigoso calar nossa culpa social? Será que a culpa diante da injustiça não é justamente o que nos levaria a entendê-la melhor e a agir? Pois é, nada disso. Respondo:
1) Em regra, a culpa não produz ação, mas descarrego. Funciona da seguinte maneira: somos autorizados a fazer pouco ou nada para que a situação mude porque o sofrimento de nossa consciência nos absolve. Inversão da frase de José Simão: “nóis goza” de muitos privilégios, mas “nóis sofre” de muita culpa. Somos desculpados de nossa inércia pela culpa que sentimos.
2) Também em regra, a culpa é péssima conselheira. Ela induz a acreditar numa contabilidade estapafúrdia, pela qual há cidadãos que devem e outros aos quais é devido, sem a mediação de lei alguma. Assim, Ferréz, na Folha da segunda passada, pode achar que o relógio roubado de Luciano Huck “paga” a miséria de seus assaltantes. Ele se expressa como se a lei não fosse (não devesse ser) a referência comum para todos: o problema não é que assaltar é crime, Huck é culpado e devedor, e o “correria” cobra o devido.
Essa maneira de entender o social oferece a todos uma compensação substancial: se a lei não é a referência comum, podemos ser assaltados nos faróis, mas também podemos praticar cada tipo de mediocridade moral e de ilegalidade, sonegar, saquear o bem público, pagar salários de esmola e por aí vai.
Em agosto, uma versão inacabada de “Tropa de Elite” foi distribuída ilegalmente em DVD, de camelô em camelô, pelo país afora. Nessa ocasião, houve vozes para justificar a pirataria e racionalizar um desrespeito endêmico à lei. Havia o estilo “eu não serei o único otário”, que, grosso modo, diz assim: “Se Renan Calheiros é presidente do Senado, eu posso comprar um DVD pirata”. E havia o estilo “está na hora de mudar”, em que um ato que nega a propriedade intelectual é justificado diretamente pela injustiça social dominante. Valia tudo, salvo o óbvio: pela lei, piratear é crime.
Pois bem, quando a culpa organiza nossa visão do mundo, tudo é permitido, assaltar de moto, a pé, de carro ou de colarinho branco.
Se você quiser passar uma hora e meia com o coração na mão e se quiser pensar e viver a realidade nacional um pouco além dos limites impostos pela consciência culpada, não perca “Tropa de Elite”.

Ferréz contra Huck: vale publicar tudo?
Domingo, 14/10/2007

Editoria: BRASIL Página: A6
Edição: São Paulo Oct 14, 2007
Seção: OMBUDSMAN
Observações: CONTINUAÇÃO


Ferréz contra Huck: vale publicar tudo?


Parece um equívoco classificar como “polêmica entre Luciano Huck e Ferréz” o debate que nas duas últimas semanas animou o “Painel do Leitor”.
Foi do apresentador de TV Huck a iniciativa de enviar à Folha o artigo “Pensamentos quase póstumos”, no qual contava o sufoco de ter o relógio Rolex roubado, com a arma apontada para a cabeça. Saiu na segunda retrasada. Não polemizava com ninguém em particular.
Quem polemizou com ele, segunda passada, foi Ferréz. O rapper e escritor, também por sua iniciativa, teve o texto “Pensamentos de um correria” impresso no mesmo espaço. Ele reconstitui o assalto pelo olhar do ladrão: “Todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio”.
Leitores protestaram. Para uns, o jornal deveria recusar o desabafo “elitista” de Huck. Para outros, permitiu a “apologia de crime” por Ferréz.
Creio que a Folha, abrigando a divergência, comprovou as virtudes do pluralismo. Oponho-me à publicação irrestrita de artigos. Por exemplo, o jornal deve vetar autor duvidando do Holocausto.
Mas Ferréz não louvou o roubo. Elaborou ficção. Ele e Huck enriqueceram a reflexão sobre violência, concorde-se ou não com suas idéias claras ou subjacentes.

O rolo do Rolex
Segunda-feira, 29/10/2007
Autor: ZECA BALEIRO
Editoria: OPINIÃO Página: A3 0710/2941697
Edição: São Paulo Oct 29, 2007
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES

ZECA BALEIRO


Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado?
NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.
Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação. Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo. Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal.
Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como “sou cidadão, pago meus impostos”. Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, “romanceando” o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.
Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de “vencedor”. Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.
E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de “marxista babaca” e “comunista de museu”) revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.
Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram “comunistas”, “petistas”, “fascistas”. Os que o apoiavam eram “burgueses”, “elite”, palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao “Houaiss”: “Elite – 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]”.
A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio _desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista “Veja”, notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita “consciência democrática”, propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: “Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos”. Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.
Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.
Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só _uma luta de classes cruel e sem fim.

JOSÉ DE RIBAMAR COELHO SANTOS, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, “Pet Shop Mundo Cão”.

Ferréz depõe em inquérito sobre apologia ao crime
Quinta-feira, 19/06/2008

Origem do texto: DA REPORTAGEM LOCAL
Editoria: COTIDIANO Página: C6 086/3596008
Edição: São Paulo Jun 19, 2008
Vinheta/Chapéu: POLÊMICA
Assuntos Principais: SEGURANÇA PÚBLICA; LUCIANO HUCK; ROUBO; ASSALTO; RELÓGIO ROLEX; FERRÉZ /LITERATURA/; ARTIGO; FOLHA DE S.PAULO /JORNAL/; POLÍCIA; DEPOIMENTO


Ferréz depõe em inquérito sobre apologia ao crime
DA REPORTAGEM LOCAL


O escritor Reginaldo Ferreira da Silva, 32, o Ferréz, depôs ontem no 77º DP (Santa Cecília), no centro de SP, devido a um inquérito para apurar se fez apologia ao crime num texto que escreveu à Folha em outubro de 2007.
O texto virou alvo de polêmica por contrariar, a partir de um personagem fictício, a indignação manifestada pelo apresentador da TV Globo Luciano Huck _também em artigo no jornal_ após ter seu relógio Rolex roubado.
Ferréz, conhecido por escrever sobre a periferia, afirmou à polícia que seu texto, “Pensamentos de um ‘correria'”, foi uma ficção que mostrava o roubo pela visão de alguém de fora da elite.
O delegado José Roberto Toledo Rodrigues, assistente do 77º DP, disse que não viu nenhuma apologia ao crime no texto e que deverá propor o arquivamento do caso.
O inquérito foi aberto em dezembro de 2007, a pedido do Ministério Público.

por Barbara Gancia

INFLACIONADO
“Levaram o Rolex de R$ 40 mil do Luciano Huck num assalto. O intelectual, rapper e grande filósofo contemporâneo Ferréz afirmou que Luciano saiu ganhando porque trocou o relógio pela vida e que o produto do roubo ajudará a fazer justiça social. Se bem entendi, sendo rico, famoso e bem-sucedido, tem mais é que ser assaltado e ainda ficar feliz?”
Pobre Infeliz
RICO HONESTO,
Putzgrila! A Angélica pagou R$ 40 mil no Rolex que deu de presente pro maridão? Alô, Luciano Huck! Que tal ensinar correndo a patroa a pechinchar?

Huck, Ferréz, Azevedo
“Este ‘Painel do Leitor’ publicou, em 17/10, carta de um cidadão que se auto-intitula professor de filosofia. Na carta, o autor agride um jornalista e tenta transferir para ele a sua própria incapacidade de tolerar o outro. Ainda mais, faz uma descarada apologia de crime, dizendo que prefere Ferréz, Mano Brown e o mano que levou o Rolex.
Penso que só um Estado de Direito, com absoluto respeito ao império da lei, possa proteger a sociedade, incluindo o indigitado. O resto é retórica de pseudofilósofo.”
WILSON LUIZ SANVITO (São Paulo, SP)

BRÁULIO MANTOVANI – Sempre leio com tristeza as notícias de mortes violentas. A ação da polícia não pode ser um mal necessário. A situação violenta em que vivemos não vai ser resolvida com uma polícia mais dura, com mais prisões e mortes de criminosos. Imaginar que a legalização das drogas ajudaria a resolver o problema é ingenuidade. Existe um apartheid social no Brasil, com ou sem drogas legais. Acabar com essa situação de apartheid é a única forma de diminuir a violência e a criminalidade. Veja, por exemplo, a polêmica em torno do relógio do Luciano Huck. O cara tem razão de reclamar? Tem. Mas isso é só um lado da moeda. O Ferréz escreveu um texto contando uma história imaginária, mas nem por isso menos real, do cidadão (insisto no cidadão) que roubou o relógio. Ele descreveu uma situação em que o episódio está, por assim dizer, historicizado. Ferréz foi além do óbvio e provocou o pensamento. O que as classes privilegiadas no Brasil precisam responder é o seguinte: vocês querem continuar pagando salários de fome para empregadas domésticas, porteiros, policiais, professores etc? Se a resposta é sim, conformem-se em perder seus relógios e agradeçam por estarem vivos. Dizer que o Ferréz faz a apologia do crime é tão equivocado quanto dizer que “Tropa de Elite” faz a apologia da violência policial.

Huck, Ferréz e Azevedo
“O senhor Reinaldo Azevedo expressa fielmente o pensamento de direita no país (‘A pluralidade e a revolução dos idiotas’, 15/10). Defende a propriedade privada, resiste às políticas públicas de recorte social mais profundo e esconde-se atrás da democracia formal. E pergunta: por que o roubo de um Rolex e não a pedofilia? Simples, porque o primeiro pode estar atravessado por uma questão social, o segundo não. A formalidade democrática sempre o impedirá de perceber isso.

De todo modo, pelo menos ele não se apresenta como os tucanos dos anos 90, que insistiam em nos convencer de que o neoliberalismo deles era de esquerda. É de direita e dá a cara para bater. Prefiro assim”
LEONARDO BARBOSA E SILVA, professor substituto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (Uberlândia, MG)

A pluralidade e a revolução dos idiotas
Segunda-feira, 15/10/2007
Autor: REINALDO AZEVEDO
Editoria: OPINIÃO
Edição: São Paulo Oct 15, 2007
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES

A pluralidade e a revolução dos idiotas
REINALDO AZEVEDO
O empresário Ferréz, ao lado de Mano Brown, é um bibelô mimado pelas esquerdas e pelo pensamento politicamente correto
HÁ UMA revolução em curso: a dos idiotas. Eles começam agredindo a lógica e terminam justificando o assassinato. Voltarei a esse ponto.
Na semana passada, o escritor e rapper Ferréz escreveu um artigo neste espaço em que tratou do assalto de que Luciano Huck foi vítima.
Lê-se: “No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes”. Ele não pode ser mal interpretado porque não pode ser bem interpretado: fez a apologia do crime, o que é crime. Será este jornal tão pluralista que admite alguém como Ferréz? Será este jornal tão pluralista que admite alguém como eu? Lustramos ambos o ambiente de tolerância desta Folha? A resposta é “não”.
O artigo do tal é irrespondível. Vou eu lhe dizer que o crime não compensa? Ele tem motivos para acreditar que sim. Lênin mandaria que lhe passassem fogo _não sem antes lhe expropriar o relógio. Apenas sugiro ao jornal que corrija seu pé biográfico: ele é um empresário; o bairro do Capão Redondo é seu produto, e a voz dos marginalizados, o fetiche de sua mercadoria. Ir além na contestação de seu libelo criminoso seria reconhecê-lo como voz aceitável na pluralidade do jornal. Eu não reconheço.
Na democracia, o direito à divergência não alcança as regras do jogo. Um democrata não deve, em nome de seus princípios, conceder a seus inimigos licenças que estes, em nome dos deles, a ele não concederiam se chegassem ao poder. Ao publicar aquele artigo, a Folha aceita que potencialmente se solapem as bases de sua própria legitimidade. Errou feio.
O poeta Bruno Tolentino é autor de um verso e tanto: “A arte não tem escrúpulos, tem apenas medida”. O mesmo vale para a ação política. Idealmente, há quem ache que o mundo seria melhor sem propriedade privada _eu acredito que, sem ela, estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos.
Posso acalentar quantos sonhos quiser, sem escrúpulos. Mas o regime democrático tem medidas. Uma delas é o respeito às leis _inclusive às leis que regulam a mudança das leis. Se admitimos a voz do assalto, por que não a da pedofilia, a do terrorismo, a da luta armada, a do racismo? Aceito boas respostas.
O empresário Ferréz, ao lado de Mano Brown, é um bibelô mimado pelas esquerdas e pelo pensamento politicamente correto, para quem o crime é uma precognição política a caminho de uma revelação.
Tal suposição, somada à patrulha que tentou transformar Luciano Huck no verdadeiro culpado pelo assalto, contribuiu para esconder um fato relevante. A cidade de São Paulo teve 49,3 homicídios por 100 mil habitantes em 2001. Em 2006, 18,39 (uma redução de 62,69%). Em 2001, havia presas no Estado 67.649 pessoas; em 2006, 125.783 (crescimento de 85,93%). Não é espantoso? Quanto mais bandidos presos, menos crimes. Quanto mais eficiente é a polícia, menos mortos.
Eis que, no dia 11, abro esta mesma página e dou de cara com um artigo de Sérgio Salomão Shecaira. Escreve: “(…) O Estado de São Paulo concentra quase a metade dos cerca de 419 mil presos brasileiros (…). Enquanto, no Brasil, existem 227,63 presos por 100 mil habitantes, em São Paulo essa relação salta para 341,98 por 100 mil habitantes”. Ele está descontente. Quer prender menos: “Enquanto, no Estado de São Paulo, em 2005, houve 18,9 homicídios por 100 mil habitantes, no Rio de Janeiro a cifra foi de 40,5, e, em Pernambuco, de 48. No entanto, nesses dois últimos Estados, o número relativo de presos é bem menor que o paulista”.
Shecaira é mestre e doutor em direito penal e professor associado da Faculdade de Direito da USP. Mas ainda não descobriu a lógica, coitado!
Ora, por que será que São Paulo tem, por 100 mil, menos da metade dos homicídios que tem o Rio e quase um terço do que tem Pernambuco? Porque há mais bandidos na cadeia! Mas ele quer menos. Logo… Em vez de Ferréz se alfabetizar politicamente no contato com Shecaira, é Shecaira quem se analfabetiza no contato com Ferréz.
A tragédia não é recente. Aconteceu com a universidade: em vez de ela fornecer teoria aos sindicatos, foram os sindicatos que lhe forneceram táticas de greve. Em vez de Marilena Chaui ensinar ao companheiro as virtudes do pensamento, foi o companheiro que explicou a Marilena por que pensar é uma bobagem.
A minha pluralidade não alcança tolerar idiotas que querem destruir o sistema de valores que garantem a minha existência. E, curiosamente, até a deles.

REINALDO AZEVEDO, 46, jornalista, é articulista da revista “Veja” e autor do livro “Contra o Consenso”.

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17 respostas para Um incidente, várias visões

  1. coabitar disse:

    “Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado.
    Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia.” – Luciano Huck

    “No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes”. – Ferréz

    O caso Rolex do Luciano Huck, depois de comentado pela visão de Ferréz fez surgir uma grande discussão entorno de um fato que normalmente ocorre todos os dias no Brasil inteiro. Porém, desta vez, o ocorrido foi com uma celebridade que desabafou sua indignação nas folhas de um dos maiores jornais em circulação.

    Porém, vemos todos os dias, nas mesmas páginas deste mesmo jornal, fatos como este, que mostra a criminalidade no Brasil e estes não são tão comentados. Por qual motivo a critica não coloca sua opinião a furtos e roubos que ocorrem corriqueiramente nos grandes centros?

    Desta vez Luciano Huck ficou ‘verde’ de raiva e em seu momento de desabafou colocou toda sua opinião para fora, já o rapper e escritor Ferréz colocando sua visão da periferia e vendo a situação por outro lado foi julgado e massacrado por uma sociedade que está de olhos vendados para o que realmente acontece.

    Não condenou nem um nem outro, até parabenizo os dois por colocar sua indignação e visão em evidência, principalmente Ferréz que não querendo fazer nenhum tipo de apologia ao crime, mostrou a sua verdade e o que realmente acontece na cabeça de um criminoso, que cresceu e vive na marginalidade. Mas em partes concordo também com a visão do apresentador quando diz que esta situação não justifica os atos, pois sei que é difícil para uma pessoa que vive sem apoio estrutural do governo, nas diversas questões como saúde, educação, emprego, porém a força de vontade e colocar-se a diante de seus desafios da vida para bater de frente, deve-se obrigação para todos, sem distinção de classe social, raça ou qualquer outra coisa que o valha.

    Enfim, este debate de idéias deveria ser levantado para que as atitudes dos governantes e da própria população mudassem o que acontece na sociedade, porém somente fez com que os envolvidos tivessem mais audiência na mídia. E ninguém perguntou onde o Rolex foi parar!

  2. Bia Souza disse:

    Questões sociais narradas como patrimônio próprio.

    Um desabafo por um assalto está longe de ser uma novidade, porém o privilégio de fazê-lo em um jornal grande circulação e gerar discussões polêmicas sobre a violência está longe de ser algo corriqueiro.

    Permitir que um apresentador de Tv com grande visibilidade exponha aos “berros” a indignação das vítimas da falta de segurança pública, tornando-se um representante social, é controverso. Se por um lado isso acarreta uma preocupação para os governantes ao verem os fatos escancarados e discutidos a todo tempo, por outro a população de renda média ou baixa não enxergará um indivíduo de rolex e carro blindado como seu semelhante.

    As proporções fugiram tanto ao âmbito da segurança, que o foco em certo momento passou a ser quem tem ou não o direito de se manifestar a respeito. Mesmo as causas educacionais que levam a marginalização dos jovens da periferia, deram lugar a uma correnteza de conceitos sobre apologia ao crime.

    No primeiro “Tropa de Elite” a memorável frase “É você quem financia essa p.. toda” do Capitão Nascimento, abria uma vertente até então pouco explorada, a participação da sociedade dita como “elite” nos problemas de segurança. Se o primeiro longa terminou dando um tiro na cara do expectador, o segundo vai muito além ao deixar claro a importância da escolha dos governantes. O filme não deixa os jornalistas de lado quando um editor se nega a fazer determinada matéria por receber ajuda do governo (Nem precisa se estender nesse âmbito depois disso né).

    Opiniões todos têm muitas, e sobre tudo. Pautar discussões que se atentem aos problemas estruturais do País é dever da imprensa, mas verificar a forma de abordar tais assuntos está nas mãos de quem coordena os veículos de mídia.

  3. Sirlene Farias disse:

    A marginalização é um calo no pé da sociedade direitista

    É muito fácil uma pessoa vinda de uma família abastada reclamar por justiça quando vê seu patrimônio arranhado, o difícil é enxergar o seu próprio crime, que é deixar as pessoas cada vez mais burras e contribuir para que a vida bandida exista para sempre.

    Situações como a do apresentador de programa de televisão, Luciano Huck, são vividas todos os dias por vários cidadãos da cidade de São Paulo e do Brasil, são pessoas de todos os níveis sociais, mas que geralmente não vão até o maior jornal do país para pedir justiça social com argumentos infantis sobre o assunto. Se levarmos em consideração, que diariamente, milhões de brasileiros que vivem à margem da sociedade vêm seus direitos serem rompidos e até sua intelectualidade posta em risco com os programas televisivos e outras corrupções protagonizadas por apresentadores milionários e políticos oportunistas, entraríamos em uma discussão profunda sobre o caso. Mas como no Brasil quem sempre tem a razão é a minoria abastada, e enquanto a maioria apenas serve para consumir, é mais fácil aceitar a versão do direitista articulado e “estudado”.

    Como o compositor Zeca Baleiro se expressou com o ocorrido, sempre haverá uma luta de classes interminável. Os mais ricos mandam, os pobres obedecem. O mais intelectualizado fala, o menos alfabetizado ouve e engole tudo sem ao menos digerir. Quando há a tentativa de inversão de fatos, a extrema-direita se articula com o argumento de “eu pago, eu tenho direito, ou de que a propriedade intelectual é privada e só quem paga é quem pode usá-la”. É sempre a mesma conversa e isso dificilmente irá mudar, pois em um sistema em que tudo está errado é complicado aceitar uma só razão.

    A discussão serve para alimentar a reflexão de que o país necessita de várias reformas, pois tem diversos problemas que a luta de classes não vai resolver. Não enxergar somente a verdade que lhe convém, talvez fosse uma maneira de ajudar, mas o processo é muito mais complicado e quase impossível de acontecer.

  4. Jessica Gonçalves disse:

    Dois posicionamentos e uma só conclusão, o que ocorre com Huck e Ferréz é uma visão política e social na qual ambos estão inseridos. O primeiro, no lado elitizado da sociedade, o segundo, na periferia.

    Huck sente-se indignado pelo fato de ter ser relógio Rolex, de 40mil reais, roubado na cidade de São Paulo. Ele cita ser cidadão e pagador de altos impostos (Só ele é cidadão e paga impostos?). Coloca-se como o bom homem da sociedade, passa horas pensando em formas de ajudar as comunidades e pessoas de baixos rendimentos a realizarem os seus sonhos. Sim! Uma grande iniciativa, mas o “Caldeirão do Huck”, programa em que ele comanda, inserido na Rede Globo, não resolve todos os problemas e, a cada casa construída em “Lar Doce Lar”, os rendimentos bancários dele se multiplicam.

    Não estou contra o apresentador por ele se sentir indignado ao ser roubado. Mas, em seu texto, Huck se colocou como único e realizador dos sonhos da periferia, e por isso não deveria ser assaltado. Todos estão vulneráveis a sofrer um assalto, seja com um Rolex no braço ou apenas carregando um bilhete único no bolso.

    Já Ferréz mostra sua indignação a respeito da posição de Huck, brincando de roteirista. Cria uma história, personagens, cenários propícios para o assalto. Para quem mora na periferia e se depara todos os dias essas imagens, concorda com cada linha, com cada palavra bem colocada de Ferréz. A criminalidade anda solta por aí. E bandido não está preocupado se você é o Luciano Huck ou o Seu João da padaria. Ele quer fazer a parte dele porque ele não tem nada a perder.

    O que mais me chamou atenção foi a polêmica que se cerrou em volta desse assalto, durante semanas. Indignações, visões políticas, preconceitos. O assalto assina matérias nos jornais todos os dias e, além disso, noticiam-se mortes, crimes de pedofilia, estupro, racismo e outros mais sérios do que o Rolex do Huck e pouco vazamento se dá. Até porque daqui segundos outro caso estará ocorrendo e este já se foi esquecido. Mas o caso de uma celebridade ser assaltada transforma-se em polêmica.

    Desculpe Huck, mas é evidente que no seu próximo aniversário, a Angélica te dará um novo Rolex, porque vocês terão grana. E se, esse mesmo assaltante, ainda estiver vivo e nas ruas, provavelmente ele poderá te abordar no farol de novo.

    E então, novo texto você escreverá e novamente teremos que ler visões e visões sobre o mesmo crime!

  5. Samantha disse:

    Os BRASILEIROS lidam com isso todos os dias!Acreditar que com ele seria diferente,é no mínimo um modo estranho de se pensar!Há cidadãos comuns e de bem,que pagam seus impostos da mesma forma e tentam fazer o bem ao próximo!Nem por isso eles estão protegidos da violência urbana!Não é porque estamos fazendo nossa parte diante da sociedade,que teremos garantias!!Não há quem as tenha!!Um governo como o nosso,UM PAÍS como o nosso…Não somente aquele que roubou o Rolex,mas também quem nós elegemos para administrar o Estado está da mesma maneira errado!!Isso tudo é responsabilidade nossa,deve ser recriminado,criticado,julgado igualmente! Não justificaremos os fatos por não haver boa distribuição de renda,falta educação as pessoas…Mas a impressão é que muitas vezes temos andado com “óculos cor de rosa” o tempo todo,que somente conseguimos enxergar a realidade quando acontece algo conosco,nos surpreendendo ou nos revoltando!! Sermos pessoas “boas”,tentar ajudar nosso país a evoluir não é um favor,é parte de uma obrigação,compromisso com nós mesmos a cuidar do nosso lugar!! Nunca irei defender o bandido,creio que temos a responsabilidade de ser cada um de nós o exemplo que queremos ver!!Pode ser que algumas vezes nos peguemos arrependidos de termos uma postura correta,mas nossa consciência tranquila é algo da qual ninguém pode nos tirar!!E a idéia do que é correto é muito relativo,abrangente,variável…Porém,minha postura é não simpatizar com o crime,nem antipatizar com a segurança pública!!Não creio em vítimas eternas,em fins certos e destinos que não possam ser mudados!! Porém também não condeno os “bem nascidos”e seus relógios de milhares de dólares…Sou a favor da reflexão e consideração de diferentes pontos de vista!Elitista ou não,agradou ou não,não importa!Olhar do ponto de vista da vítima ou do ladrão nos leva a ponderar,pensar sobre a sociedade em que vivemos e nosso papel nela!Me pego a observar papel dos meios de comunicação na abordagem destes temas,e em quem são as pessoas por detrás do Huck e Ferréz!!E até onde defender certos pontos de vista pode ser isentos de segundas e terceiras intenções camufladas…

  6. Priscilla Vierros disse:

    Há dois anos fui assaltada, em uma padaria, me levaram a câmera fotográfica profissional que tinha comprado no mesmo dia. Senti a mesma raiva que Luciano Huck. Em 2007 perdi meu tio, que levou um tiro covardemente pelas costas enquanto estava no açougue comprando mistura para a família jantar. Ele não reagiu e a única coisa que levaram foi sua vida. Foi nele que pensei quando fiquei 40 minutos como refém na mira de uma arma de alguém que estava drogado, querendo dinheiro e dizendo que mataria todo mundo senão encontrasse nada de valor. Ele encontrou minha câmera e eu fiquei com a vida.
    Até hoje não consegui comprar outra, o problema é que no dia do assalto levaram algo que eu jamais recuperei: minha visão humanista dos criminosos. Diferente das pessoas que são beneficiadas por ONGS que artistas e intelectuais montam, nunca tive a chance de participar de nenhum projeto. Já tive oportunidade para vender droga, roubar, me prostituir, mas isto não me faria ser jornalista. Então optei pelo caminho mais difícil, estudei. E foram anos me preparando, e muitas despedidas, momentos difíceis, mas eu nunca fraquejei, como diria os Racionais MCs.
    E consegui, venci. Algumas pessoas não quizeram esperar para chegar onde cheguei, como o Wagner, que morreu assaltando um posto de gasolina aos 18 anos. Ele era um ótimo aluno, mas nunca concordou com o sistema. Pagou com a vida, como num jogo macabro. Eu que optei por estudar também poderia ter pago com a mesma moeda. Ninguém é blindado, nem o bandido, nem a elite.
    O crime nunca é justificável. E hoje depois de tantas perdas e de ver tantas injustiças posso dizer que a desigualdade social atormenta a periferia, mas posso afirmar que a essência da maldade nunca vai acabar e é este o problema. Quem é pior o que te rouba e mata, ou o que te explora pagando um salário de fome ostentando a riqueza?

  7. João Paulo Pereira disse:

    Como um dos elementos do cotidiano, a violência, infelizmente, tornou-se algo corriqueiro na vida de muitas pessoas. Menos na de Luciano Huck.

    Ao publicar o texto, com forte ter de revolta, onde relata um assalto vivenciado por ele, na cidade de São Paulo, o apresentador conseguiu atrair comentários favoráveis e contrários à sua indignação com a violência descabida das capitais brasileiras.

    Acostumado a ajudar aqueles que não possuem tantas oportunidades na vida, com a reforma de casas e premiações em dinheiro, o apresentador conheceu bem de perto a dura realidade da desigualdade social em nosso país. Sem a proteção das câmeras e sem merchandising. Talvez a mais infeliz e real.

    A revolta de Huck é legítima e compreensível. É o que sentimos quando alguém nos tira algo conquistado com o suor do trabalho. No caso de Huck, um Rolex de R$ 40 mil; presente de sua mulher. No entanto, não conseguimos publicar em um jornal de grande circulação a nossa revolta. Ela fica restrita, apenas, a um boletim policial sem efeito.

    Ao abrir mão da blindagem do seu carro, como ele próprio diz em seu texto publicado pelo jornal Folha de São Paulo, o apresentador tornou-se mais um da estatística e vivenciou o outro lado de uma triste história. Mostrou também o quanto desconhece a realidade social brasileira e as suas diversas e profundas vertentes.

    É triste saber que além dele, milhares de pessoas, desconhecidas, além de terem sido assaltadas, perderam suas vidas, por pouco.

  8. Mais uma vez a lei da semeadura provando sua veracidade. Ou o famoso aqui se planta aqui se colhe O resultado da revolta de alguém que foi lesado, agredido, humilhado. Em contra partida a reação de alguém que já nasceu lesado, agredido e humilhado.
    Parece que ficamos tentando encontrar e apontar as vitima e os culpados. Quando na verdade, a meu ver nós temos duas vitimas e dois culpados na mesma história.

    Sabendo que uma coisa jamais justifica a outra, o Huck foi vitima mas também foi culpado, Ele tem voz ativa, e liberdade de expressão e uma vez ao mês poderia levantar a sua voz a favor de todos aqueles que são lesados, roubados, humilhados e muitas vezes mortos, na cidade de são Paulo, a cidade que ele tanto ama . No entanto ele não fez, e não faz isso, por quê? ! Por que a gente só grita quando sente dor, a gente só se mobiliza quando é claramente afetado, essa é nossa tendência natural. Eu não estou falando de boa-ação, nem de esmola social ( não me entenda mal) Eu estou falando em se revoltar pelo próximo com a mesma intensidade que se revolta por si próprio . (ou isso entraria na classe da utopia)

    Bem, e quanto o assaltante, culpado, culpado, culpado.
    Já nasceu culpado, já nasceu errado,
    Seria inútil tentar discutir, ou dissertar sobre o roubo, por que roubo é roubo, e crime é crime, assim como pecado é pecado tanto na lei dos homens quanto na lei de Deus. O que eu penso sobre isso, é que quem tem mais pode mais, e quem tem menos não pode nada . Sem querer ser redundante, mas, por falta de medidas de educação e segurança e tudo o mais que todos sabemos e o que se faz para resolver é muito pouco ou quase nada .Todos os dias pessoas são vitimas de algum tipo de violência, a grande diferença é que nem todos tem direito de discutir, e desabafar em publico..
    No mais, considero todo o episódio lamentável.

  9. Cíntia Gomes disse:

    Foi preciso Luciano Huck ser assaltado, para que ele questionasse a segurança pública, os problemas sociais na periferia e a criminalidade na cidade de São Paulo. Por que será que antes disso ele nunca quis desabafar? Será que ele nunca assistiu nos noticiários ou leu nos jornais que alguém foi assaltado?

    Não quero justificar a ação dos criminosos, mas para alguns acordarem para a realidade e sair um pouco do conto de fadas (mundo em que vive a minoria neste país), infelizmente apenas sentindo na pele, se preocupam com a violência que há nas cidades brasileiras, pois a criminalidade não existe apenas em São Paulo, violência não acontece apenas na periferia, e vítimas não são apenas àqueles que possuem um poder aquisitivo maior. Quantas pessoas moram na periferia e batalham para ganhar um salário mínimo e inclusive para pagar os impostos, também já foram assaltadas. Será que esta vítima teria espaço para desabafar seu medo e indignação, seria aberta uma discussão a favor desse morador da periferia? Teria essa repercussão? Acredito que não pois se formos olhar as estatísticas, casos como este acontecem todos os dias.

    As discussões que seguiram após a declaração do apresentador e o artigo de Ferréz, apenas mostraram os dois lados e abriu espaço para que as pessoas refletissem e mostrassem seu ponto de vista, mas o que me incomoda é a questão de discutirem quem está certo ou errado, quem é o coitado ou quem faz apologia ao crime, e esquecer que isso não resolve o problema, que a criminalidade e a diferença social continua e que pouco é feito na prática para mudar essa realidade.

  10. Nayara Konno disse:

    A partir do desabafo de Luciano Huck por meio de um artigo seu, publicado por uma grande revista, gerou-se uma enorme polêmica, envolvendo o rapper Ferréz, sendo acusado de apologia ao assalto sofrido por Huck.
    No desabafo, Huck expõe suas impressões e indignações. Questiona a segurança da polícia e aproveita para protestar quanto à incapacidade do governo a seu ver.
    Dias depois Ferréz escreve um texto usando um personagem fictício onde mostra a visão de alguém de fora da elite sobre o assalto, onde diz “No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.” Ferréz acha que foi justo para todas as partes, pois a desigualdade social está em pauta, o assaltante provavelmente precisava roubar para pode sustentar sua família ou algo do tipo.
    O rapper logo virou alvo de polêmica e foi acusado a apologia ao assalto.

    Ferréz, por um texto fictício, soube mostrar o olhar de fora da elite e ressaltar os problemas e dificuldades que levam alguém da periferia a cometer crime.
    Luciano Huck apenas reclamou em grande mídia algo que acontece todos os dias com centenas de brasileiros. Resolveu expor seu senso de justiça a partir do dia em que foi assaltado, não antes. Será que é porque as pessoas só se manifestam quando a situação lhe atinge?

  11. Bianca Pedrina disse:

    Assaltante ou assaltado, quem é vítima?

    O assalto sofrido por Luciano Huck, não é diferente do assalto que sofri quando tive minha máquina fotográfica levada à base da “peixeira” no ano começo deste ano na Bahia.

    Não é o que se leva e sim o que se passa. Ficar com uma arma de calibre 38 apontada na sua cabeça ou com uma “peixeira” na sua jugular, é algo que em ambos os casos, não importa a classe social, provocam o mesmo sentimento: revolta e impotência.

    Mas o que me incomoda nesta história, é que a polêmica só foi causada, pois quem foi assaltado foi o Luciano Huck, pessoa pública. E eu, a Maria, o José, o João, não somos pessoas públicas e não possuímos Rolex, talvez só o salário que acabamos de receber ou o celular que ralamos para comprar. Nós ficamos no anonimato e nossos assaltantes também.

    Luciano Huck estava vivendo vida perfeita e só foi parar para pensar em violência, quando foi assaltado. Quando ocorreu comigo só pensava em, após um dia cansativo de trabalho, comer o Acarajé da Dinha. Fui olhar para o lado e perceber como somos reféns, quando a “peixeira” surgiu de um beco qualquer e levou minha bolsa.

    Ignoramos a pobreza, a violência, e, só nos importamos com ela, quando nos incomoda. Enquanto o marginal está lá na favela longe de nós, tudo bem ele existir, quem se importa? Mas quando ele desce do morro para “tocar o terror” no asfalto, aí sim, nos damos conta que eles existem. Para mim, isso está errado. Nos debruçamos sobre estas polêmicas só quando acontece com alguém famoso ou quando sofremos na pele. Porém todos os dias, o anônimo do Calibre 38 e o da peixeira, têm que fazer seus corres para garantirem o seu.

    Acho que precisamos de debate sim, mas não para saber o certo e o errado: se assaltante ou assaltado, o que temos diante de nós, é uma sociedade desigual, que ignora o que a incomoda. È isto que temos que mudar.

    Não é fazendo uma higienização na cidade, prendendo todos os assaltantes que vamos ter segurança. Acredito que precisamos definitivamente de políticas de prevenção, como saúde, educação, moradia… Para mim, não ter direito a estes itens que citei acima, é também assaltar seja de quem for o direito de ser cidadão e acima de tudo de existir.

  12. Elaine Cancio disse:

    Opinião todo mundo tem. Porém sair por aí anunciando-a exige o domínio da argumentação. Os textos foram elaborados com cuidado e capricho. Cada pensamento, cada palavra foram justificadas. Ainda bem, gosto deste mundo de amarrações de ideias, ainda que eu não seja daquelas que sai por aí anunciando minhas bandeiras ou desabafando aos quatro cantos.
    Tampouco sou de entrar num embate por política ou religião. Prefiro ouvir com ouvidos e com o coração e, só então, elaboro alguma ideia que some conhecimento, mude meu jeito de pensar ou simplesmente é destinada à lixeira.
    Aqui todo mundo apresentou o seu lado:o apresentador-vítima, rapper-porta-voz, a ombudsman, o cantor, a colunista sarrista. No liquidificador do meu pensamento, defendo que vale sim carregar um rolex comprado com o dinheiro fruto de trabalho, que não está com nada tirar de quem tem aquilo que não se tem condição de comprar, que há gente boa e decente em qualquer meio social e que há atalhos para todo mundo (ricos e pobres) enriquecer de forma ilícita, assim como “retornos” para quem foi além e quer voltar. Governo, iniciativa privada, cidadão comum têm de unir suas experiências e boa vontade para combaterem as questões de violência e diferença social.

  13. André Nicolau disse:

    Ao levar ao debate um problema social que diariamente atinge pessoas comuns, como você e eu, Luciano Huck, porta-voz e bandeira de uma parcela privilegiada de sociedade brasileira, escancarou sua visão de mundo um tanto moralista, preconceituosa e digna de uma ingenuidade quase que genética daqueles que habitam os glamorosos jardins da paulicéia desvairada. Embora insista ressaltar seu afeto quase patriótico pela Terra da Garoa, o “humanitário” apresentador evidencia suas verdadeiras raízes cravadas em uma São Paulo, que obviamente não se assemelha à verdadeira Selva de Pedras, marcada pela injustiça, extrema violência e pobreza que dão a tônica ao cotidiano avassalador da periferia.

    Do outro lado, Ferréz, representante de uma realidade à qual se origina os assaltantes do cobiçado Rolex, expressa de forma legítima e testemunhal uma questão que vai além da rasa dualidade em torno da segurança e os caros impostos prestados ao país. Não se trata de uma questão de consciência culpada, como teorizou Contardo Calligaris, onde segundo ele esta visão de mundo nos leva a pensar que tudo é permitido, “assaltar de moto, a pé, de carro ou colarinho branco”.

    Não, este não é o xis da questão e minha pluralidade também não alcança tolerar idiotas que querem discutir o sistema, não o de valores, mas o social, através de uma visão reacionária, cega e própria daqueles que estão blindados à realidade deste país marcado por uma história de dívidas, culpas e tristes consequências há mais de 500 anos. Como bem disse Zeca Baleiro, o problema do mundo é, sim, um só: “uma luta de classes cruel e sem fim”.

  14. Patrícia Silva disse:

    O artigo 6° da Constituição Federal Brasileira diz “são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados…”. Se como brasileiros temos direito a tudo isso, por que ainda sofremos com a criminalidade, a falta de saúde, educação, moradia, segurança e tantas outras questões?

    Simples. O Estado não consegue suprir com as carências da população. Dizer que apenas ricos sofrem com a violência não é verdadeiro, assim como dizer que todo pobre é marginalizado. Nos morros do Rio de Janeiro, afinal, quantos moradores não são prejudicados pela violência e a troca de tiros entre polícias e traficantes? Milhares.

    Em São Paulo, quantos trabalhadores e estudantes não voltam para suas casas na periferia com medo de becos escuros e pessoas desconhecidas que surgem de repente e aparecem das sombras? Várias.

    O crime não está direcionado apenas a pessoas moradoras de bairros nobres da cidade. Pelo contrário, ele está presente na vida de todos, do pai de família que sai de madrugada para sustentar sua família e teme perder o dinheiro do ônibus, ao empresário que parte com seu carro importado em direção ao escritório.

    Sendo assim, cabe ao Estado de Direito criar condições para que a população receba educação, trabalho, moradia e segurança.

  15. Tatiane Ribeiro disse:

    O artigo do Luciano Hulk foi uma visão muito simplista sobre uma realidade muito mais complexa. Foi um desabafo como ele mesmo diz. E concordo com Zeca Baleiro “que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como “sou cidadão, pago meus impostos””.
    Ferréz, também indignado com o texto, respondeu na mesma moeda. Talvez para mostrar o quanto foi absurdo a atitude, agiu de forma parecida.
    Não dá para diminuir questões de segurança dessa forma, num país onde a desigualdade social é uma das maiores do mundo. Então roubam o meu carro e eu vou gritar “Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade.” Seria hipocrisia demais da minha parte. As pessoas que se preocupam com o que acontece fora dos muros de casa, fazem sua parte para igualar as oportunidades de vida para que os jovens do país não sejam “mais vulnerável aos apelos da vida bandida”. Eu não sou o Luciano Hulk, não tenho vida pública e nem dinheiro no banco. Mas tenho consciência que é necessário fazer alguma coisa dentro do que posso, para que essa panela de pressão não exploda. Isso significa ter mais bom senso antes de escrever um texto sobre assunto tão delicado
    E também não quer dizer que eu seja a favor do ladrão que rouba nas esquinas. Como também não sou Férrez, que nasceu e vive em uma comunidade considera uma das mais violentas do mundo, acredito que há outro meio de sobreviver a essa cruel realidade de excluído. Como estudante de escola pública, muitos não acreditaram que eu pudesse chegar até aqui. No entanto, eu lutei contra a vulnerabilidade e sou a favor de ajudar as outras pessoas a lutar contra ela. Mas quando quiser desabafar de alguma injustiça pessoal, vou para o botequim com meus amigos, porque acredito que não terei muito a acrescentar numa discussão tão ampla.

  16. Katiane Rodrigues disse:

    O roubo do Rolex do Luciano Huck despertou em vários jornalistas e artistas o desejo de manifestar suas opiniões e críticas. Cada um expressa, com todo o direito, seu ponto de vista. Mas os discursos são superficiais; São como remédios paliativos para um problema que não se sabe como solucionar. Talvez não queiram mesmo encontrar uma saída para o crime.

    A discussão sobre o roubo não deveria ser feita apenas para julgar quem está certo ou não; também acho desnecessário discutir se o desabafo do Huck na Folha foi ou não legítimo. Todos os dias milhares de pessoas são furtadas, roubadas ou mortas em função da desigualdade social. A despeito do desabafo do Huck, a criminalidade continua assustando e aprisionando os cidadãos.

    Fundamental seria repensar a estrutura de algumas instituições brasileiras, como a escola e o sistema carcerário. Muitos frequentam a escola por obrigação, mas saem do ensino fundamental sem terem aprendido a pensar ou a questionar. É a intenção do Estado. Seria mais difícil controlar cidadãos como os franceses, que se juntam para lutar por seus direitos. Já o sistema carcerário, parece ser uma escola do crime. Em vez de incluir, exclui os jovens da sociedade.

    Penso que boa parte dos jovens não começam a roubar por acaso. Mas, porque a sociedade não lhe deu qualquer tipo de oportunidade (o que não justifica o roubo).
    Como a estrutura política do País parece não contribuir muito para resolver o problema, cabe a nós fazermos algo em favor da sociedade. Lutar pela inclusão social e ajudar os grupos excluídos a encontrar e manifestar sua identidade pode ser uma alternativa.

  17. Eder Antonio disse:

    O roubo do rolex de Luciano Huck faz parte de todo um sistema social adoecido. É evidente que ser assaltado, principalmente com arma apontada pra cabeça, é algo assustador e que causa nervosismo, independente da condição econômica da vítima. Como bem disse Zeca Baleiro, é legítima a indignação de Luciano, porque antes do apresentador famoso e bem sucedido, se trata da pessoa humana. Todavia, o fato ocorrido em questão, é o efeito de problemas e desigualdades sociais muito agudas nesse país. A causa desses males reside na figura do Estado, que supostamente seria o responsável em atender todas as necessidades da população, com a intenção de reduzir gradativamente a pobreza extremada e as péssimas e por vezes improváveis, condições de vida. Para mim, fica muito claro o posicionamento do Estado, ao ver o Ministério Público abrindo inquérito contra Ferréz, alegando possível caráter apologético em sua manifestação publicada pela Folha. O Estado é tendencioso, pende para o lado das camadas socias abastadas, porque faz concessões com ela, e enquanto as coisas assim continuarem, as mazelas sociais hão de vir à tona, ainda que por conta do choro público de Lucianos ou Josés.

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